Era o começo de um outono típico na pequena cidade de Autumm Hollow. Com seus pouco mais de quatro mil habitantes em festa. No outono a cidade ficava mais populosa devido ao festival de outono realizado todo ano. Era uma época de festividades. Porém, para a família Redclife, não começou tão festiva assim.
- A vida tem seus mistérios, as vezes sinto que Deus se diverte com tudo isso. - dizia o reverendo Thomas Redclife a sua família enquanto saia do cemitério onde acabara de sepultar sua mãe. Era um dia nublado, uma manhã abafada. Entraram no carro sua esposa, e seus dois filhos: Richard e Rachel. Richard tinha 16 anos, era o filho que toda mãe queria ter, pelo menos foi isso que ele cresceu ouvindo de toda a família, era o garoto modelo, estudioso, religioso e que não dava problemas para a família. Rachel tinha 17 anos e era agitada e desligada, típica adolescente alienada. Seguiram o caminho para a casa calados. Thomas parecia uma estátua, movimentava o mínimo necessário para manter o carro no seu curso para a casa. Rachel olhava pela janela entediada, Margareth, a esposa de Thomas parecia assustada e Richard olhava tudo como um espectador. Ele era um ótimo observador, por vezes se sentia como se não fizesse parte daquilo tinha uma facilidade enorme em se distanciar das coisas e fazer análises de todos a sua volta, mas tinha sérios problemas em enxergar e fazer uma análise de sua vida, tinha medo de tomar decisões. Não era confiante nas suas escolhas, inseguro e tomado por dúvidas que não dividia com ninguém. Margareth numa tentativa de quebrar o clima chato que tomava conta do carro liga o rádio do carro e procura uma estação de músicas cristãs. No mesmo momento Thomas desliga.
- O que foi? – pergunta ela não entendendo o porque daquela atitude.
- Apenas não estou bem, me deixa pensar um pouco sem nada me pertubar.
- Tudo bem. – disse ela dando de ombros.
- A vovó estava feia não estava? – comentou Rachel.
- Ela estava morta, o que você queria? – questionou Richard num tom que condenava o comentário da irmã.
- Mas isso não é desculpa para ficar desleixado. Quando eu morrer quero uma maquiagem muito bem feita.
- Rachel, pare de falar asneiras – a voz de Margareth cortou a de sua filha.
- Não é asneiras mãe, é o que penso.
Richard admirava isso na sua irmã, talvez fosse a única coisa também. Em geral o garoto a achava fútil e idiota, mas o jeito como ela defendia suas idéias era algo que o rapaz invejava.
- Guarde o que você pensa para você por enquanto, esse não é um bom momento.
- Ela estava com quantos anos amor? – perguntou a mulher a seu esposo.
- Setenta e oito. – disse ele sem tirar os olhos da estrada.
- Ficar velho deve ser assutador - ela levou a mão ao peito, seu marido a encarou com estranheza.
- O que foi querida, viu algum fantasma?
- Não, apenas estou imaginando como será minha velhice, sabe, biologicamente, a velhice é um processo de morte, estamos morrendo aos poucos todos os dias, isso começa a partir dos trinta. Eu li isso num livro de biologia.- Ela parecia realmente assustada.
Richard tinha seus comentários e opiniões sobre o assunto, mas preferia ficar calado. Achava estranho o medo que a mãe tinha da velhice. Ela comprava potes e mais potes de cremes na tentativa de desacelerar seu envelhecimento, mas por volta dos quarenta anos, que era sua idade, os cremes não faziam tanto efeito. Richard ficava triste ao perceber que sua mãe se preocupava com algo que para ele era algo tão natural.
- Vamos querida, depois nós os conhecemos.
- Ah sim, claro, tudo bem. – ela entrou e continuou a olhar pela janela da casa. Rachel subiu as escadas correndo para seu quarto. Richard ficou observando o pessoal que fazia a mudança. Era uma gente normal, nada demais. Mas algo chamou a atenção do garoto. Era um outro rapaz, da sua idade. Ele carregava caixas, tinha um cabelo um pouco comprido e claro. Ele olhou para Richard e sorriu. O rapaz logo ficou sem graça. O jovem de cabelos compridos pôs a caixa no chão e foi até a cerca que dividia os quintais e com aceno de mãos o chama para perto. Richard com cara de que não entedia nada perguntou se era com ele que o garoto interagia. Ele confirmou apontando para Richard.
- É com você mesmo, não tem mais ninguém aqui. – Richard riu timidamente e se aproximou da cerca.
- Oi, prazer. Me chamo Richard. - e estendeu as mãos para cumprimentar o rapaz.
- Prazer, Me chamo Chevalier.
- Bonito nome. - comentou Richard curioso.
- Significa " o mais belo de todos".- Richard ensaiou dizer algo, mas ficou calado. - É cavaleiro - continuou Chevalier.
- O que? - perguntou Richard sem entender de onde vinha o assunto.
- Significa cavaleiro em Francês, eu estava te zuando. - Richard sorriu sem graça.- Vocês se vestem muito formalmente por aqui, sabia que era uma cidade tradicional mas não tanto - disse Chevalier, chamando a atenção para o terno preto que Richard usava.
- Ah! não, isso aqui. Só usamos pra ocasiões especiais ou para ir a igreja.
- Estão vindo da igreja?
- Não - ele ficou calado por uns segundos. - Estou vindo do enterro da minha avó.
- Que pena cara, desculpa o comentário.
- Que nada, nem era tão apegado assim a ela.
- Mesmo assim, deve ser barra perder alguém da família.
- Eu também achava que seria. - disse ele com um tom decepcionado na voz.
- Como assim ?
- Você vai me achar um sem coração, mas não fiquei triste, aliás, sequer fiquei triste pela minha avó. O que me incomoda é ver meu pai triste.
- Saquei.
- Ela era velha sabe, já estava mais que na hora. É natural. Na velhice digo.
- Sim, pois do contrário é algo realmente triste, sabe alguém morrer tão jovem, com a vida inteira pela frente- disse Chevalier demonstrando preocupação na sua fala.
- Já perdeu alguém ?
- Sim, mas não quero falar disso, não agora.
- Tudo bem.
- Eu o amava muito sabe. O pior de tudo é a falta que uma pessoa faz.
- Minha avó não vai me fazer falta. Me sinto um monstro falando isso sabe.
- Todo mundo tem um pouco de monstro dentro de si - disse Chevalier sorrindo. - Richard ficou pensativo - Sabe, o médico e o monstro. - Chevalier comentou gesticulando tentando explicar a expressão.
- Não gosto de pensar assim. Mas faz sentido. As vezes me sinto como se não me conhecesse...
- Ou como se tivesse medo de se conhecer - completou Chevalier. - Richard ficara assustado, não entendia como estava conseguindo se abrir tanto com um semi-conhecido, mas era uma sensação que o fez se sentir muito bem.
- Bem, depois nos falamos mais, agora preciso terminar de arruma a mudança.
- Tudo bem, preciso entrar e tirar essas roupas, somos vizinhos, teremos bastante tempo pra conversamos depois.
- Ou não. - Comentou Chevalier rindo.
- Ai para .
- Mas é sério, não sabemos o que vai acontecer daqui a pouco.
- É estranho demais pensar desse jeito. É macabro.
- Não é, faz a gente aproveitar mais intensamente cada momento. - Richard ficou pensativo.
- É realmente. Enfim, até outra hora. Espero assim - disse ele rindo.
- Também espero, se cuida. E mais uma coisa, você fica muito bonito de terno - Chevalier disse isso e correu pra dentro de sua casa. Richard ficou parado olhando a cena, demorou um pouco parado, tentando digerir a informação, por um instante achou que havia sido cantado pelo vizinho. Seu estômago gelou, e o coração acelerou. Foi caminhando devagar para sua casa, chegou até a porta e olhou em direção a casa dos novos vizinhos. A sensação de frio no estômago o incomodou de novo. " Tá repreendido" era o que ele pensava conscientemente.
Ao entrar sua irmã veio correndo em sua direção.
- Onde você estava?
- lá fora, conversando com o novo vizinho
- É eu vi.
- Então porque perguntou?
- Ah deixa, qual o nome dele? - Ela estava na ponta dos pés.
- Chevalier - disse o garoto secamente.
- Que nome bonito.
- É cavaleiro em Francês.
- Ele é francês? - O sorriso de Rachel aumentou assustadoramente.
- Não - disse Richard com cara de espanto. - O nome dele que é. Garota, acabamos de enterrar a vovó, e você está cheia de fogo pra cima do vizinho novo?
- Qual o problema? A vida continua, aposto que a vovó teve muitos namorados quando mais jovem.
- Respeite ela.
- Não estou desrespeitando a vovó. Apenas estou interessada nele. E a vovó era velha, mas não era boba tá. Vocês já estão amigos? - Richard andava e ela vinha atrás dele conversando.
- Não sei, acabamos de nos conhecer.
- Ele tem namorada? sobre o que conversaram?
- Sobre a vovó, da pra parar de fazer perguntas idiotas. Se está afim dele, vai lá e se apresenta.
- O que ele vai pensar de mim? que sou uma atirada.- Richard parou, se virou e encarou a irmã. e lá estava ela com seus cabelos lisos loiros com cara de paisagem.
- Imagina que ele vai pensar isso.- Zombou Richard.
- Claro que vai - O garoto ficava admirado com a capacidade da irmã de não perceber ironias.
- Você não entende nada de garotos, embora seja um. Pelo menos por fora né.
- O que você quis dizer com isso?
- Nada, não. mas vai me apresenta ele.
- Você é muito interesseira sabia.
- sim.
- E fala isso assim na maior cara de pau?
- Irmãos são pra essas coisas não são?
- não, não são não.
- Ah fala sério, somos obrigados a conviver, se pudéssemos escolher não seriamos irmãos, já que somos obrigados a isso, que pelo menos tenha alguma utilidade. - Richard olhava sério para ela, mas no fundo concordava, embora não fosse idéia de familia que ele gostasse de acreditar.
- Ah, vai irmãozinho, eu prometo que te ensino uma coreografia da Lady Gaga. - Richard riu.
- Vou pensar no teu caso. - ele parou em frente ao seu quarto. - Ok, mas espera eu ficar amigo dele tá, você é muito dada garota.
- Não fui em quem foi correndo falar com ele assim que ele chegou - ela disse isso virando-se e descendo as escadas.- Richard ficou olhando a cena, já estava acostumado com as indiretas da irmã.
- Bad Romance - Gritou ele para a irmã, e entrou no seu quarto.

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